Em 1989 um cometa riscou o céu da pequena cidade onde vivia.
Eu ainda criança não pude compreender o significado daquele evento. Simplesmente um cometa cruzou o céu da cidade onde eu vivia.
E hoje quando eu penso naquele cometa nada me vem à cabeça, a não ser a sua imagem embaçada pela ação do tempo.
Ao perceber que nada me vem a cabeça algo finalmente acontece. Algo que apenas a minha linguagem limitada me permite espiar.
Um indivíduo viveria dez anos a mais se pudesse alcançar a cauda do cometa. Assim concebeu a minha alma de poeta.
No entanto, quando eu penso nele como uma mera produção visual esteticamente agradável e sem qualquer espécie de significado, acontece uma fusão entre a minha consciência e a química existente em meu corpo. Esta fusão gera uma sensação intangível próxima da nostalgia.
E a imagem do cometa ganha um significado temporal, como uma espécie de marco.
Naquele mesmo dia no ano de 1989, minutos antes do cometa ricar o céu, eu, com apenas cinco anos de idade descobri que o que produzia batidas constantes no meu peito tinha o nome de coração e que sua função era bombear o sangue pelo meu corpo a fim de me manter vivo.
Por mais que eu tente ignorar o sentido de um evento banal, a minha condição humana não escapa ao lirismo empírico do cotidiano onde as conclusões são piegas.
O cometa era meu coração de cinco anos.